
21h24min era o que marcava o relógio da cozinha e já não fazia mais sentido esperar. Já era preciso aceitar que ninguém chegaria e mesmo que por um milagre a porta agora se abrisse, não existiria qualquer desculpa boa o suficiente. "Atrasos acontecem o tempo todo", pensou tentando acalmar a raiva que borbulhava e fazia queimar seu estômago. Estava tudo pronto, seria aquela noite e não passaria dela, com ou sem aquela porta se abrindo. Destino, livre arbítrio, certeza, esperança, eram palavras que se misturavam àquela altura pendendo suas certezas e dúvidas para uma balança imaginária cujo peso era praticamente impossível de suportar. A vida é um caminho sem volta, sem atalhos e sem possibilidades. É um pacto tácito com Deus. Deus!? Onde Ele está que não abriu a porta pra me salvar? Ou Ele é a porta? 21h36min e é agora o silêncio que perturba. Sua cabeça dói e sente náuseas. A porta continua fechada e o relógio continua lá, frio e indiferente à todo aquele cenário, tiquetaqueando seus malditos ponteiros, desafiando sua própria coragem para um confronto mortal. Tudo é tão simples mas nós complicamos tudo porque nós gostamos de explicações e de longos porquês.
Alguns de nós já morreram, por dentro, e vagam por aí sem destino. O mal reina incólume no coração e na mente de muitas pessoas e o que eu quero é libertar o meu mundo dele, da sua tirania cruel e covarde. 21h48min e tudo está como nunca esteve antes, a cada minuto mais perto de se esvair como se água em calefação, de uma vez só. Abra a porta, foi o que pensou ter escutado em mais um arroubo imbecil de esperança para que ela se abrisse sozinha e lhe mostrasse um outro caminho, para bem longe daquele cômodo de expiação. Tudo vai ficar bem, já está quase na hora. Somente um sopro, e nunca mais sinto nada. Ninguém mais vai chegar, a porta não vai se abrir. Ninguém vem me salvar. Fecho os olhos e uma escuridão toma todo o lugar. Ainda se escuta ao longe o relógio, impaciente, contando o tempo em segundos. 21h59min e o fim. Do outro lado do corredor era a esperança batendo a porta, desesperada para entrar, procurando uma brecha, uma fresta, que seja! A porta estava trancada à chave e nunca mais se abriria, para ninguém.
Imagem: Nuno Bernardo
Um comentário:
Texto meio triste. mas muito bom!
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